Entrevistas com Mestres – Douglas Santana Mota

Seguindo com nossa série magistral,  dessa vez trazemos Douglas Santana Mota para conversar um pouco sobre AWE.

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1 – Qual foi a sua primeira experiência com jogos PbtA, como conheceu jogos com a apocalypse engine a primeira vez que narrou usando ela?

Há uns 10 anos tenho sistematicamente buscado livros e jogos fora do padrão: Unknown Armies, Qin, Wild Talents, Broken Rooms, Hot War & Cold City. Se algum título fosse minimamente parecido com Storyteller ou DnD, eu corria na direção contrária – e por isso passei longe de Dungeon World a princípio!!

Mas, felizmente o inusitado Spirit of 77 me converteu! Comecei minha primeira sessão perguntando aos jogadores por que eles decidiram salvar Carl Lucas da prisão. Isso aí: Marvel década de 70. Cara, foi uma farra muito, muito bacana. E virou uma crônica de 16 sessões! Não poderia ter sido melhor.

2 – O que você precisou mudar na forma que mestrava antes e o que levou dessa engina para os outros sistemas que usa?

Sempre fui um mestre bem sandbox e sempre recompensei jogadores que tomassem para si as rédeas narrativas. Na verdade, definia a qualidade de uma história por quanto meus jogadores conseguiam me surpreender. Acho que no fundo eu ansiava sem saber pelo PbtA.

Quando eu finalmente encontrei, me adaptei rápido e fiquei muito animado para pesquisar, ler, praticar e afiar as técnicas que aprendia. Como formular perguntas cada vez mais relevantes, profundas e simples.

Descobri também o real valor de um bom coadjuvante, criado e evoluído pelos jogadores. Tendo inclusive definido o clímax de uma crônica com escolhas entre quais npcs morreriam, ao invés de meramente dispensar dano aos protagonistas. O impacto foi intenso e as decisões carregadas de significado – o fim perfeito para uma ótima crônica.

Também me tornei obsessivo no sentido de expurgar da narrativa e da mesa de jogo divagações sobre motivação e filosofia – um vício que talvez remonte ao Mundo das Trevas e seu “horror pessoal”. Ações dizem mais… muito mais, sempre!

3 – Quais dicas tem para mestres iniciantes ou ainda para mestres de uma forma geral, a partir do seu aprendizado com jogos PbtA?

Seja fã dos personagens. Parece óbvio, mas acho que o D&D nos condicionou a sermos só mais um 1º nível num mundo de npcs fodões. Parece que com isso alguns narradores acabaram entendendo que os personagens dos jogadores não são os reais protagonistas da história. Nessa premissa nos tornamos espectadores da ação, ou pior, coadjuvantes, incapazes de realmente mudar o rumo da Ficção. Amordaçados e algemados, levados a crer que nos bastava a posse de um personagem, e que essa seria toda a contribuição para a história contada.

E quantas frustrações isso tudo causou!

Os jogos PbtA invertem essa tendência quando dizem que você joga com, por exemplo, O Guerreiro. Pode haver muitos guerreiros por aí, mas você não, meu chapa: você é O Cara. Um dos protagonistas da história, O Guerreiro. E o Narrador é instruído claramente a abraçar essa ideia.

Por fim, uma lição que acho que levei da mesa para a vida: “to do it, do it!” – traduzindo bem livremente como: se quer fazer alguma coisa, meta as caras. Justificar suas escolhas não é interpretação. Filosofar sobre a motivação do personagem também não. Diga algo. Faça algo. Aja. Meta as caras rs

Nenhum texto alternativo automático disponível.

4 – Conte uma das suas experiência mais divertidas ou marcantes em um jogo que usa a AWE e porque lembra dela.

Se Spirit of 77 foi uma paixão a primeira vista, Legacy têm sido um casamento amoroso.

Após a tal primeira crônica, tentei Dungeon World, Tremulus e Uncharted Worlds. Todos muito legais. Mas topei com o Legacy: Life Among the Ruins, comecei a narrar e tive certeza de que tinha em mãos algo especial. (Em retrospecto fica fácil dizer que esse tal elemento especial do jogo são seus sistemas exclusivos de lidar com o passar das eras e a evolução de sua família). Enfim, lá se foram mais umas 16 sessões e estava chegando ao fim de nossa crônica. Primeiro, estávamos todos impressionados pela originalidade e profundidade do cenário que havíamos criado. A ficção percorreu 300 anos de história e 4 personagens de cada família e na última cena, os jogadores perceberam como um desses personagens a muito morto era o pivô central da história. A descrição do fim da história e do festival memorial a esta personagem crucial marcaram os meus jogadores (e a mim) dum jeito suave e muito, muito forte. Não foi um 20 num dado, não foi um dano absoluto, nem tampouco um somatório de poderes e vantagens imbatível – foi uma decisão dos personagens, foram os detalhes do cenário e de sua história… que NÓS criamos; ISSO nos empolgou.

5 – Fale um pouco sobre sua experiência com RPG como um todo e seus trabalhos na área, e como podemos jogar com você! 

Jogo desde 1994. E narrei muito no Mundo das Trevas clássico e de DnD. Muito mesmo! Campanhas de 3, 4, 5 anos com várias sessões por semana de 6 a 8 horas em média. Muito.

É claro que sempre escrevi sobre minhas crônicas e idéias. Mas nunca tinha almejado publicar. Até que em um mês frio e sombrio da minha vida decidi mudar o jogo. O resultado foi Mirrors In the Ruins, um suplemento para o Legacy: Life Among the Ruins que ganhou o selo Electrum Best Seller (entre os 6% dos títulos mais vendidos) do drivethrurpg.

Devo muito ao James Iles, autor do Legacy, por ter acreditado na proposta e me dado uma oportunidade. E felizmente não paramos por aí. Tivemos um retorno tão positivo e tantas boas idéias que só tínhamos uma opção: lançar um Legacy 2nd Edition!

Imagina meu orgulho de dizer que estou envolvido neste projeto, em financiamento coletivo agora. E que 100% das idéias criadas e publicadas no Mirrors estão nesse novo livro. E que há planos de traduções em francês e… português. E que temos uma nova editora de peso nos dando apoio, a Modiphius; aquela mesmo de Mutant: Ano Zero e Coriollis. E que se metas foram alcançadas no financiamento coletivo os livros serão capa dura com jaqueta. E que devo escrever mais dois suplementos. E… Pois é, tem muita coisa boa para acontecer.

Normalmente narro nos eventos da minha cidade, em particular o Dungeon Capixaba. E estou sempre formando mesas para testar novas idéias. Para quem quiser trocar uma ideia e conhecer mais do Legacy, nosso antro é no G+!

Também temos participo do financiamento coletivo 177 backers e estamos com 60% financiado em apenas 6 horas!!!

Até breve e aguardem a próxima matéria com mais um mestre!

Gostou?, sugira um bom mestre de RPG que use AWE em suas mesas para podermos entrevistar e divulgar!

3 comentários sobre “Entrevistas com Mestres – Douglas Santana Mota

  1. Pingback: Entrevistas com Mestres – Pedro Paixão Ratto | RPGWorldsite

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