Entrevista com Mestres – Rafão Araújo

Seguindo a série de entrevistas com mestres iniciada semana passada, seguimos essa semana com Rafão Araújo!!

1 – Qual foi a sua primeira experiência com jogos PbtA, como conheceu jogos com a apocalypse engine a primeira vez que narrou usando ela?

Cara, em 2013 um dos meus jogos favoritos, o Reinos de Ferro RPG concorreu com Dungeon World e na briga, Reinos de Ferro ficou com prata. Aquilo me deixou possesso (risos), então fui ler Dungeon World apenas pra saber “quem era esse rpgezinho indie que tirou ouro do meu jogo favorito na época”. Eu vi, curti, mas não me apaixonei. Tempos depois, eu fiquei louco por Monsterhearts, achei aquele jogo incrível, mas meu inglês não era apurado (e ainda não é… kkk), então, descobri que ele usava o “mesmo” sistema do Dungeon World, fui ler ele mais para isso. Desde então, minha relação com o RPG mudou.

Eu narrei timidamente algumas vezes para apenas um amigo, me pareceu muito bom, mas ainda assim estranho. O problema não estava com o jogo, mas com minha mente engessada na forma como via o RPG e suas rolagens de dado. Mas, aos poucos fui entendendo mais e mais do jogo, minha mente foi se abrindo e devagar, entendi qual era a proposta real do sistema.

Agradecimentos especiais ao meu amigo Alisson Vitório, acho que mandei mais de 500 áudios pra ele no Whattsapp. Mesmo assim, não tinha experimentado tudo que o sistema oferecia, acho que devido minha não afinidade com fantasia medieval. Foi jogando minha primeira campanha de Monsterhearts que encontrei aquilo que procurava para um jogo de RPG com foco em interação entre o grupo e inter-relacionamentos. Pareceu-me tudo aquilo que sempre quis jogar com Vampiro A Máscara, mas nunca havia conseguido.

Cheguei a participar de 4 sessões de Apocalypse World com os caras mais da hora da net (Edu Caetano narrando, Guilherme Korn, Bruno Bento e eu de jogadores). Foi sensacional. Fizemos o mindset mais foda possível, cheio de personagens estilosos, loucuras, sexo e violência… Mad Max style. Infelizmente o jogo não foi pra frente (te odeio vida adulta), mas apenas a preparação foi mais excitante do que muitas sessões de jogos que já tive.

2 – O que você precisou mudar na forma que mestrava antes e o que levou dessa engine para os outros sistemas que usa?2 – O que você precisou mudar na forma que mestrava antes e o que levou dessa engine para os outros sistemas que usa?

Precisei mudar tudo, mudar não, precisei desaprender. Ler o Guia de Dungeon World foi fundamental. Entender que a ficção é a resposta pra tudo, sempre ela, a maldita ficção. Ler sobre apocalypse engine no começo é chato, porque parece tão simples que deve haver algo errado. Você fala com um amigo mais experiente e a resposta é sempre a mesma “siga a ficção”. O que é mais potente, uma espada bastarda ou uma adaga? Depende da ficção. Contra um inimigo frente a frente à espada, já dentro do intestino de um verme gigante, espremido em seu sistema digestivo, a adaga é sua melhor amiga. Nossa, foi difícil entender isso, muito difícil. Mas devagar foi fazendo sentido, depois que fez sentido para mim, foi a parte mais foda: fazer com que fizesse sentido para os outros.

Devagar as coisas foram se encaixando, todos já sabem que o que fazem e como fazem irá influenciar na cena, irá ditar um novo ritmo de jogo. Isso é incrível.

O que levei para os outros foi principalmente “Faça perguntas” e “Jogue para ver o que acontece”. As perguntas hoje são a minha base para qualquer jogo, do jogo mais tradicional ao mais indie, fazer perguntas é a chave para fazer bons jogos. Saber como lidar com elas, a hora de fazê-las mais abertas ou fechadas, é uma ferramenta superimportante. E sobre jogar pra ver o acontece, bem, parei de planejar muito os eventos dos meus jogos. Mantenho uma linha, sei o que quero, mas deixo as escolhas (e por consequência os dados) ditar o ritmo do jogo.

3 – Quais dicas tem para mestres iniciantes ou ainda para mestres de uma forma geral, a partir do seu aprendizado com jogos PbtA?

Primeiro, use o que disse acima, aprenda a fazer perguntas. Antes de iniciar seu jogo de D&D pergunte sobre coisas abertas do tipo “Que tipo de inimigo seria legal” até coisas diretas “quem aqui já foi amigo deste vilão?”. Isso levará seu jogo para outro espectro, fará com que os jogadores entrem no clima de qualquer tipo de jogo.

Segundo, deixe que os dados digam o que vai acontecer e respeite seus resultados. Diga sim ou diga não. Siga a ficção, mas quando os dados forem rolados, que sejam para momentos importante e que seu resultado seja valorizado, sendo sucesso ou falha.

Terceiro, trabalhe com a falha dos Personagens. Se eles falham, seja nos dados ou em seus objetivos, é nessa hora que as peças da sua engrenagem avança. A cada falha, pense que aventura deve progredir. No lugar de pensar em cada pequeno evento do seu jogo, pense nos grandes eventos, esperando algo que os faça acontecer.

4 – Conte uma das suas experiência mais divertidas ou marcantes em um jogo que usa a AWE e porque lembra dela.

Era fim de temporada de Monsterhearts. Um personagem Vampiro era apaixonado pela professora. Esta por sua vez o via como um garoto e estava com caso com professor de história. Ele por sua vez, queria que ela servisse como receptáculo para o PJ Lobo, tendo um filho com ele. Sendo assim o primeiro lobisomem puro depois de muitos anos. O vampiro foi na casa da professora, levou um fora. Na hora de sair, o professor chegou. Então, puto de raiva, na hora de se despedir ele dominou o professor, rolou seus dados e teve 7-9 e dentre as opções ele decidiu que o professor teria sua sanidade abalada.

 Isso catapultou o jogo para seu final. Como o professor não curtia a professora, só queria usá-la, ele ficou bem loucão e decidiu seguir para o grande plano. No lugar de tatua-la de modo bonitinho, ele a riscou com umas tatuagens loucas, símbolos totêmicos e a amarrou para o grande momento. Não bastando, no outro dia ele procurou o personagem Lobo e contou sobre o grande plano, disse que o PJ era o ultimo lobo puro, que precisava haver reconciliação com o Pai Lobo e que ele precisava ter um filho. O PJ que não queria fazer parte disso, teve sérios problemas com o professor.

Terminou com o PJ explodindo de raiva, gente morrendo e muita loucura. Uma rolagem de dados, uma escolha e o final do jogo tomou outra proporção. Esse foi apenas um exemplo de váaaarios que poderia dar.

5 – Fale um pouco sobre sua experiência com RPG como um todo e seus trabalhos na área, e como podemos jogar com você!

Bem, eu jogo RPG há uns anos, tive como primeira escola a linha do Mundo das Trevas, capitaneei o Reduto do Bucaneiro por muitos anos, falando totalmente sobre Reinos de Ferro, e trabalhei em alguns projetos indie. Desde 2012 que trabalho com Jefferson Neves no Belregard (que entra em financiamento coletivo no próximo mês) e lancei junto com o Jorge Valpaços o Deloyal (a venda pela pensamento coletivo). Juntos formamos o Lampião Game Studio, que visa ser um estúdio de criação de jogo analógicos.

Tem sido um processo incrível trabalhar com esses caras.

No momento tenho trabalhado em alguns projetos pessoais, envolvendo outros jogos utilizando o L’Aventure (o sistema de Deloyal), Fate e o próprio Apocalypse Engine. Que diga-se de passagem, é um sistema muito delicado para se trabalhar. Há um necessidade intrínseca de fazer com que tudo case enquanto se construí algo para ele.

No momento trabalho intensamente no RPG com nome temporário de HiDS. Um jogo onde você interpreta um jovem adolescente que teve problemas com o sobrenatural num colégio construído sob um encontro de centenas de linhas de ley. Por isso ao seu redor ocorrem vários eventos sobrenaturais, além das linhas de ley serem usadas por monstros para viajarem pelos planos e pelo mundo. Os personagens devem estudar na escola e trabalhar para ajudar com esses eventos e monstros. O jogo visa ser mais leve e engraçado, misturando Stranger Things com Harry Potter e Scooby Doo.

A chama não para, nunca mesmo. A forma como trabalhamos é sempre voraz e visceral. Um escreve, outro opina, um terceiro revisa, o primeiro já volta refazendo, e assim segue o fluxo. Rápido o trabalho tá feito. Minha mente é uma bagunça, as vezes preciso frear, ouvir o original para só depois opinar. Se não me controlar, entupo alguém de ideias, mesmo quando não pedido…kkk.

Para jogar comigo, puts, tô longe e streaming tem sido difícil, mas podemos tentar. Deloyal tá aí como um jogo lindo. Tenho um mega prazer de narrá-lo para qualquer um. Um jogo que bebe muito das fontes narrativas do Apocalypse Engine. Conte sempre comigo e com o Lampião.

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Se quiserem conhecer mais sobre os trabalhos do Rafão, podem olhar na página do facebook da Lampião, ou ainda no blog.

Aguardem a próxima matéria com mais um mestre!

Gostou?, sugira um bom mestre de RPG que use AWE em suas mesas para podermos entrevistar e divulgar!

 

5 comentários sobre “Entrevista com Mestres – Rafão Araújo

  1. Rafão é sem duvida alguma o melhor mestre que já encontrei nessa longa vida de rpg, o cara além de manjar muito de vários sistemas tem uma compreensão absurda do que cada jogador espera de uma mesa e transforma a experiência de jogo em algo único.

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  2. Pingback: Entrevistas com Mestres – João Pedro Torres | RPGWorldsite

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